Captulo 7

O MUNDO DO CARNAVAL
MITOS E RITUAIS
No ltimo captulo, tentamos abordar as atitudes e valores populares atravs dos heris populares. Um risco dessa abordagem era o de que os heris tinham de ser 
retirados do seu cenrio. Na cultura popular europeia tradicional, o tipo de cenrio mais importante era a festa: festas de famlia, como os casamentos; festas de 
comunidade, como a festa do santo padroeiro de uma cidade ou parquia (Fte Patronale, Kirchenweihtag, etc.); festas anuais comuns a muitos europeus, como a Pscoa, 
o Primeiro de Maio, o Solstcio de Vero, os doze dias de Natal, o Ano Novo e o dia de Reis, e por fim o Carnaval. Eram ocasies especiais em que as pessoas paravam 
de trabalhar, e comiam, bebiam e consumiam tudo o que tinham. O padre italiano Alberto Fortis observou desaprovadoramente, em sua visita  Dalmcia, que "a economia 
domstica no  comumente entendida pelos morlacchi, um povo pastoril daquela regio; nesse aspecto, eles se parecem com os hotentotes, e acabam numa semana com 
o que poderia durar por muitos meses, simplesmente porque se apresenta uma oportunidade de se divertirem".1 A Dalmcia podia ser um caso extremo, mas ilustra claramente 
o lugar da festa na sociedade tradicional. Em oposio ao cotidiano, era uma poca de desperdcio justamente porque o cotidiano era uma poca de cuidadosa economia. 
Seu carter de ocasio especial vinha simbolizado nas roupas que o povo usava para dela participar  as melhores. Um visitante ingls em Npoles notou que "basta 
muito pouco para vestir o lazaro ("pobre"), exceto nos feriados; ento, ele de fato se enfeita espalhafatosamene, com casaco rendado e meias de cores brilhantes; 
suas fivelas so de um tamanho enorme".2 As roupas especiais eram sinal de que o dia no era um dia comum. pg.202
Certos tipos de espetculo s ocorriam durante as festas, como os jogos ingleses de maio e seus equivalentes toscanos, Maggi ou Bruscelli, ou os espanhis, o auto 
pastoril encenado no Natal e o auto sacramental encenado em Corpus Christi  para no falar dos vrios tipos de peas carnavalescas. Dentro das casas, muitas vezes 
os jarros, copos e pratos mais ricamente decorados s eram usados em ocasies festivas, e assim as peas remanescentes podem enganar o historiador, se no for cuidadoso, 
quanto  qualidade da vida cotidiana no passado. Com efeito, metade da casa podia ficar reservada para ocasies especiais; na Sucia dos sculos XVII e XVIII, o 
tipo de habitao corrente era a parstuga, casa com dois aposentos principais, um para o uso dirio, outro para festas e convidados. Se a casa tivesse apenas uma 
sala principal, ela podia ser transformada para as ocasies especiais colocando-se pinturas em tecido que ficavam guardadas. Particularmente apropriado para essas 
ocasies especiais era o bonadsmaleri com temas populares, como o casamento em Can ou a visita da rainha de Sab a Salomo, que apresentavam um espelho idealizado 
do anfitrio e seus convidados.3
Um socilogo francs sugeriu que os homens nas sociedades tradicionais vivem "da lembrana de uma festa e da expectativa da prxima". Thomas Gray insistiu no mesmo 
ponto quando escreveu sobre Turim, em 1739: "Esse Carnaval s dura do Natal at a Quaresma; metade do ano restante se passa lembrando o ltimo Carnaval, a outra 
metade se esperando o Carnaval seguinte".4 As pessoas contavam o tempo pelas grandes festas, como o dia de so Miguel (29 de setembro) ou o dia de so Martinho (11 
de novembro). Nas grandes festas urbanas, as multides se engrossavam com os camponeses locais, que vinham  cidade para no perder as diverses. Alguns viajantes 
ingleses que estavam em Prato, na Toscana, para a festa de Nossa Senhora, puderam ter uma boa viso da multido na piazza, "entre a qual calculamos que metade trazia 
chapus de palha e um quarto tinha as pernas de fora". Um clrigo ingls, que em 1787 passou a Semana Santa em Barcelona, observou que "em ocasies como essa, muitos 
vo a Barcelona vindo das aldeias vizinhas, e alguns de provncias distantes". As peregrinaes a locais sagrados por ocasio das principais festas constituam grandes 
acontecimentos na vida do povo. Na Provena, um homem que visitara o santurio de so Cludio, no Jura, ficou conhecido pelo resto da vida como Romieu, como hoje 
em dia os peregrinos a Meca recebem o ttulo de Haji.5 As imagens nas paredes de casas de aldeia muitas vezes podiam ser lembranas de peregrinaes, pois perto 
dos santurios vendiam-se figuras de imagens sagradas, pg.203 como em Mariazell, na ustria, ou Czestochowa, na Polnia. Mesmo uma pea de moblia, como um armrio 
ou cama, de uso dirio, podia estar associada  festa para a qual fora feita, provavelmente o casamento dos seus primeiros possuidores. Muitas vezes ela traria as 
iniciais deles e a data do grande acontecimento.

Discutir festas  necessariamente discutir rituais. "Ritual"  um termo de difcil definio; nas pginas que se seguem, ele se referir ao uso da ao para expressar 
significados, em oposio s aes mais utilitrias e tambm  expresso de significados atravs de palavras ou imagens. A vida cotidiana nos incios da Europa moderna 
estava repleta de rituais religiosos e seculares, e as apresentaes de contos e cantigas no constituam excees. Os contadores de estrias italianos comeavam 
com o sinal da cruz, e na Esccia do sculo XVIII um relatrio dirigido  Sociedade das Terras Altas citava "um velho sujeito na parquia que com o mximo de gravidade 
tira seu gorro a cada vez que canta Duon Dearmot ... ele me disse que era em considerao  memria daquele heri".6 Para rituais mais elaborados, porm, tinha-se 
que esperar as ocasies especiais. Esses rituais mais elaborados deixaram pouqussimos traos para que o historiador possa reconstru-los com alguma preciso. Contudo, 
devemos tent-lo, pois um quadro da cultura popular tradicional sem esses rituais seria ainda mais enganador do que a reconstruo do historiador. Por exemplo, o 
significado de um heri popular pode se modificar com o ritual atravs do qual ele  apresentado ao pblico.

Um exemplo notrio dessa modificao  a de Robin Hood. Robin, alm de heri de baladas, era tambm heri dos jogos de Maio. Muitas vezes participava da festa da 
Primavera inglesa, com seu rei e rainha de Maio. As roupas verde-oliva de Robin e sua casa na floresta faziam dele um smbolo adequado da primavera, mas, para ser 
rei de Maio, Robin precisaria de uma rainha. No existem registros da ligao da donzela Marion com Robin at o sculo XVI, centenas de anos depois que a estria 
dele foi contada pela primeira vez, mas Robin Hood e a donzela Marion foram o rei e rainha de Maio em Reading, em 1502, em Kingston-on-Thames, em 1506, em Londres, 
em 1559, em Abingdon, em 1566. Seria enganador descrever Robin como um "esprito da vegetao", segundo termos frazerianos, pois isso seria ignorar seu significado 
social, ainda que o Robin fora-da-lei possa ter envergado o papel e assumido os atributos de um esprito da primavera.7
A estria de so Joo Batista est mais bem documentada e, curiosamente, segue linhas semelhantes s de Robin. A noite de so pg.204 Joo cai no Solstcio de Vero. 
Nos incios da Europa moderna, essa festa era a ocasio de muitos rituais, que incluam acender fogueiras e pular por cima delas, tomar banho em rios, mergulhar 
ramos. O fogo e a gua so smbolos usuais de purificao, de modo que  plausvel afirmar que o significado da festa era a renovao e a regenerao, e tambm a 
fertilidade, pois existiam rituais para adivinhar se a prxima colheita seria boa ou se uma determinada moa se casaria no ano seguinte. O que tudo isso tem a ver 
com so Joo?  como se a Igreja medieval adotasse uma festa pr-crist e a fizesse sua. Assim como a festa do Solstciode Inverno, em 25 de dezembro, veio a ser 
celebrada como o nascimento de Cristo, da mesma forma a festa do Solstcio de Vero veio a ser celebrada como o nascimento do anunciador de Cristo. O banho no rio 
era reinterpretado como uma comemorao do batismo de Cristo por so Joo no rio Jordo. So Joo, como Robin Hood, parece ter envergado o papel de esprito da vegetao. 
s vezes ele aparecia com um ramo na mo, e muitas vezes era apresentado como um eremita, com pouca roupa, vivendo em lugares selvagens (acima, p.174). Por isso 
no seria difcil v-lo como um woodwose, um homem selvagem dos bosques, figura popular na arte medieval que parece simbolizar a Natureza (em oposio  Cultura).8
Uma famosa teoria do sculo XIX sobre os mitos sustentava que eles tm sua origem nos rituais. Segundo ela, ao longo do tempo, os rituais deixaram de ser compreendidos 
e foi preciso inventar mitos que os explicassem. Essa teoria  simples demais, e podem-se encontrar exemplos em que o mito antecede o ritual, como no caso da missa; 
mas os exemplos de Robin Hood e so Joo Batista sugerem que o ritual s vezes realmente influencia o mito. Ainda mais claros so os exemplos de santo Antnio Abade 
e so Martinho. Por que o santo ermito Antnio haveria de ser representado com um porco? Porque seu dia de festa cai em 17 de janeiro, poca do ano em que as famlias 
matavam seus porcos. Entre as canes tradicionais sobre so Martinho havia uma que comeava:

Wann der heilige Sankt Martin
Will der Bischof sehr entfliehn
Sitzt er in dem Gnse Stall...
(Quando o sagrado so Martinho / Quer ao Bispo escapar / Ele no cercado dos gansos h de sentar...)
No existe nada sobre esse incidente nas biografias tradicionais do santo. Contudo, a Festa de so Martinho cai em 11 de novembro. Os gansos eram abatidos nessa 
poca, e particularmente na Alemanha era pg.205 tradicional com-los naquele dia. O ganso fazia parte do ritual e assim ele se insinuou dentro do mito.9
CARNAVAL
O exemplo par excellence da festa como contexto para imagens e textos  certamente o Carnaval. Particularmente no sul da Europa, o Carnaval era a maior festa popular 
do ano, poca privilegiada na qual o que muitas vezes se pensava poderia ser expresso com relativa impunidade. O Carnaval era uma poca favorita para a encenao 
de peas, e muitas delas no podem ser corretamente entendidas sem se ter algum conhecimento dos rituais carnavalescos, a que tanto aludem.
Antes de se poder tentar qualquer interpretao,  preciso reconstruir um Carnaval tpico a partir das provas fragmentrias que sobreviveram. Essa reconstruo  
inevitavelmente arriscada, pois, embora as provas italianas sejam as mais ricas,  um tanto perigoso ver a Europa atravs de lentes italianas. A maior parte das 
provas remanescentes se refere s cidades, e no nos dizem o que gostaramos de saber sobre a cultura camponesa, embora alguns camponeses morassem em cidades e outros 
provavelmente viessem at elas para participar da festa. Grande parte das provas vem de forasteiros, turistas estrangeiros que podem ter entendido mal o que viam 
e ouviam (acima, p. 92). Nenhum Carnaval era exatamente idntico a outro. Existiam variaes regionais, e existiam outras diferenas devidas ao tempo,  situao 
poltica ou ao preo da carne numa determinada poca. No entanto, essas variaes s podem ser avaliadas com algum tipo de critrio normativo que permita medi-las, 
algum quadro composto de um Carnaval dos incios da Europa moderna.
A estao do Carnaval comeava em janeiro, ou mesmo em finais de dezembro, sendo que a animao crescia  medida que se aproximava a Quaresma. O local do Carnaval 
era ao ar livre no centro da cidade; em Montpellier, Place Notre Dame; em Nuremberg, a praa do mercado em torno da prefeitura; em Veneza, Piazza San Marco, e assim 
por diante. O Carnaval pode ser visto como uma pea imensa, em que as principais ruas e praas se convertiam em palcos, a cidade se tornava um teatro sem paredes, 
e os habitantes eram os afores e espectadores, que assistiam  cena dos seus balces. De fato, no havia uma distino marcante entre atores e espectadores, visto 
que as senhoras em seus balces podiam lanar ovos na multido abaixo, e os mascarados pg.206 muitas vezes tinham licena para irromper em casas particulares.10
A ao dessa gigantesca pea era um conjunto de acontecimentos estruturados mais ou menos formalmente. Os acontecimentos de estruturao menos formal prosseguiam 
intermitentemente durante toda a estao de Carnaval e se difundiam por toda a cidade. Em primeiro lugar, havia consumo macio de carne, panquecas e (nos Pases 
Baixos) waffles, que atingia seu clmax na Tera-Feira Gorda, que na Inglaterra do sculo XVII era referida como ocasio de "tanto cozer e grelhar, tanto torrar 
e tostar, tanto ensopar e fermentar, tanto assar, fritar picar, cortar, trinchar, devorar e se entupir  tripa forra que a gente acharia que as pessoas mandaram 
para a pana de uma s vez as provises de dois meses, ou que lastrearam suas barrigas com carne suficiente para uma viagem at Constantinopla ou as ndias Ocidentais". 
As bebidas tambm corriam. Na Rssia, segundo um visitante ingls, na ltima semana de Carnaval "eles bebem como se nunca mais fossem beber".11 O povo cantava e 
danava nas ruas  no que isso fosse incomum nos incios da Europa moderna, mas sim a excitao, e algumas canes, danas e instrumentos musicais eram especiais, 
como o Rommelpot holands, uma bexiga de porco esticada sobre uma botija com gua pela metade. "Quando se enfia uma vara de junco no meio da bexiga e se a move entre 
o polegar e os outros dedos, o instrumento produz um som que no difere do emitido por um porco esfaqueado".12 O povo usava mscaras, algumas com nariges (ilustrao 
16), ou fantasias completas. Os homens se vestiam de mulher, as mulheres de homem; outros trajes populares eram os de padre, diabo, bobo, homens e animais selvagens, 
como, por exemplo, urso. Os italianos gostavam de se fantasiar como personagens da commedia dell'arte, e Goethe comenta ter visto centenas de Pulcinellas no corso 
de Roma. Um ingls em Paris para o Carnaval de 1786 escreveu que "papas, cardeais, monges, diabos, cortesos, arlequins e magistrados, todos se misturavam numa mesma 
multido promscua".13 Essa multido no se limitava a se fantasiar, mas tambm representava papis. "Um se faz de doutor em direito, e sobe e desce pelas ruas com 
o livro na mo, discutindo com cada um que encontra".14 Bobos e selvagens corriam ruas afora, batendo nos circunstantes com bexigas de porco e at com varas. As 
pessoas se atiravam farinha umas nas outras, ou mesmo confeitos com a forma de mas, laranjas, pedras ou ovos, que podiam ou no estar cheios de gua de rosas. 
Em Cdiz, o ubquo visitante ingls viu mulheres nos balces a despejar baldes d'gua nos homens embaixo.15 Os animais eram vtimas usuais da loucura do Carnaval; 
os cachorros pg.207 podiam ser balanados de um lado para outro, dentro de cobertores, e os galos apedrejados at a morte. A agresso tambm era verbal; trocavam-se 
muitos insultos e cantavam-se versos satricos.16
Outros acontecimentos eram estruturados de maneira mais formal: concentravam-se nos ltimos dias de Carnaval, nas praas centrais, estabeleciam uma maior distino 
entre atores e espectadores, e muitas vezes eram organizados por clubes ou confrarias dirigidas por "reis" ou "abades" do desgoverno, formados principalmente, ainda 
que no exclusivamente, de rapazes das classes altas, como nos casos da Abbaye des Conards (Rouen), da Compagnie de Ia Mre Folle (Dijon), da Compagnie della Calza 
(Veneza) ou do Schembartlufer (Nuremberg).17 As apresentaes que eles organizavam eram "improvisadas" no sentido em que no havia um roteiro e (provavelmente) 
nem ensaios, mas eram coordenadas por um grupo de conhecidos, que tinham participado antes de tais ocasies. As apresentaes no eram nem exatamente imutveis, 
nem exatamente livres, assim como no eram nem propriamente srias, nem pura diverso, mas sim algo intermedirio. Incluam com freqncia os trs elementos que 
se seguem.
Em primeiro lugar, um desfile, em que provavelmente haveria carros alegricos com pessoas fantasiadas de gigantes, deusas, diabos e assim por diante. Em Nuremberg, 
havia um nico carro alegrico, Hlle, trazido num tren pelas ruas at a praa principal. Muitas vezes, ele adotava a forma de um navio, que lembrava as procisses 
com carros-navios ocasionalmente mencionadas em pocas antigas e medievais. Os carros alegricos eram particularmente freqentes e famosos em Florena. Os atores 
representavam jardineiros, amas-secas, esgrimistas, estudantes, turcos, Landsknechten e outros tipos sociais. Cantavam canes compostas para a ocasio, que dirigiam 
s damas nos balces que olhavam o desfile passar. Em alguns carnavais franceses, os maridos que tinham apanhado das suas mulheres, ou tinham se casado recentemente, 
eram levados em procisso pelos sditos do "grande prncipe da Tera-Feira Gorda" ou conduzidos pela cidade montados de costas num burro.18
Um segundo elemento recorrente no ritual carnavalesco era algum tipo de competio; as disputas no ringue, as corridas de cavalo e as corridas a p eram muito populares. 
O Carnaval romano inclua uma corrida de rapazes, uma corrida de judeus e uma corrida de velhos. Ou podia haver justas ou torneios em terra ou na gua; em Lille, 
no sculo XVIII, os competidores ficavam de p em dois barcos no rio. Partidas de futebol na Tera-Feira Gorda eram comuns na Gr-Bretanha pg.208 e no norte da 
Frana. Em Ludlow, brincava-se de cabo-de-guerra; em Bolonha, um lado atirava ovos no outro, que tentava apar-los com bastes.19

Um terceiro elemento recorrente no Carnaval era a apresentao de algum tipo de pea, geralmente uma farsa. No entanto,  difcil traar uma linha entre uma pea 
formal e "brincadeiras" informais. Havia cercos simulados, populares na Itlia, onde um castelo construdo na praa principal seria tomado de assalto; processos 
simulados, as causes grasses populares na Frana; sermes simulados, populares na Espanha; araes simuladas, populares na Alemanha, em que mulheres solteiras empurravam 
o arado; e casamentos simulados, em que a noiva podia ser um homem, ou o noivo um urso (cf.p. 146, acima, sobre a pardia). Muitas brincadeiras desse tipo se centravam 
na figura do prprio "Carnaval", que geralmente assumia a forma de um homem gordo, panudo, corado, jovial, muitas vezes enfeitado com comidas (salsichas, aves, 
coelhos), sentado num barril ou acompanhado (como em Veneza, em 1572) de um caldeiro de macarro. A "Quaresma", em contraste, assumia a forma de uma velhinha magra, 
vestida de preto e enfeitada com peixes  o "Z Quaresma" (Jack a Lent) ingls parece ter sido uma exceo, enquanto personagem masculino. Esse contexto do Carnaval 
deve nos ajudar a explicar os nomes e imaginar as caractersticas de diversos palhaos famosos do perodo: "Hans Wurst" certamente era uma figura carnavalesca com 
uma salsicha, enquanto Pickleherring ("Arenque Azedo") e Steven Stockfish ("Estvo Bacalhau") eram descarnados personagens da Quaresma.20
Existem alguns indcios que sugerem que as lutas entre o Carnaval e a Quaresma no eram apenas frutas da imaginao de Brueghel, Bosch e outros pintores, mas sim 
representadas em pblico; em Bolonha, em 1506, houve um torneio entre o "Carnaval", montado num cavalo gordo, e a "Quaresma", num cavalo magro, cada qual com um 
batalho de seguidores. O ltimo ato da festa muitas vezes era uma pea na qual o "Carnaval" enfrentava um processo simulado, fazia uma falsa confisso e uma imitao 
de testamento, era executado de brincadeira, em geral na fogueira, e recebia um funeral de gozao. Ou, ainda, um porco podia ser solenemente decapitado, como acontecia 
anualmente em Veneza, ou uma sardinha podia ser enterrada com todas as honras, como era o caso em Madri.21 pg.209

O "MUNDO DE CABEA PARA BAIXO
O que o Carnaval significava para o povo que participava dele? Num sentido, a pergunta  desnecessria. O Carnaval era um feriado, uma brincadeira, um fim em si 
mesmo, dispensando qualquer explicao ou justificativa. Era uma ocasio de xtase e liberao. Em outro sentido, a pergunta precisa ser desdobrada. Porque a simulao 
assumia essas formas especficas? Por que o povo usava mscaras com nariges, por que atiravam ovos, por que executavam o "Carnaval"? Os contemporneos no se deram 
ao trabalho de registrar o que o Carnaval significava para eles  devia parecer bvio , de modo que teremos de proceder indiretamente, procurando temas recorrentes 
e suas associaes mais comuns.22
Havia trs temas principais no Carnaval, reais e simblicos: comida, sexo e violncia. A comida era o mais evidente. Foi a carne que comps a palavra Carnaval. O 
macio consumo de carne de porco, de vaca e outras ocorria de fato e era representado simbolicamente. O "Carnaval" pendurava frangos e coelhos nos seus trajes. Em 
Nuremberg, Munique e outros lugares, os aougueiros desempenhavam um papel importante nos rituais, danando, correndo pelas ruas ou mergulhando algum novato na gua. 
Em Koenigsberg, em 1583, noventa aougueiros carregaram em desfile uma salsicha que pesava quase duzentos quilos.
Carne tambm significava "a carnalidade". O, sexo, como  usual, era mais interessante simbolicamente do que a comida, devido s vrias maneiras de se disfarar, 
por mais transparentes que esses vus possam ser. O Carnaval era uma poca de atividade sexual particularmente intensa, como tm conseguido mostrar os historiadores 
do sculo XVIII francs, com suas tabelas do movimento sazonal das concepes; o pico era em maio-junho, mas havia um segundo pico em fevereiro ou por volta disso. 
Os casamentos freqentemente se realizavam durante o Carnaval, e os casamentos simulados eram uma forma de brincadeira popular. Nessa poca, no s se permitiam, 
como tambm eram praticamente obrigatrias as cantigas com duplo sentido. Uma cano tpica era a cantada por um carro alegrico de "chaveiros" florentinos, que 
diziam s mulheres,  medida que passavam pelos seus balces, que:
E bella e nuova ed util masserizia
Sempre con noi portiamo
D 'ogni cosa dovizia, pg.210
E chi volesse il pu toccar con mano.
(E ferramentas belas e novas e teis / Sempre trazemos conosco /Serve para qualquer coisa, / E quem quiser pode pr a mo.)

Em Npoles, em 1664, as senhoras ficaram chocadas ao ver um falo de madeira, com "o tamanho do de um cavalo", carregado pelas ruas.23 Em vista desse incidente, no 
parece muito forado interpretar mscaras com longos narizes ou chifres como smbolos flicos, isso sem falar da salsicha levada em procisso em Koenigsberg; ou 
chamar a ateno para o significado sexual da "arao" em que as moas solteiras tinham de participar, ou para a bexiga de porco usada para tocar msica, jogar futebol 
e bater nas pessoas. O galo e o porco eram smbolos contemporneos de luxria, ao passo que os peludos homens selvagens e ursos que freqentemente apareciam no Carnaval 
e podiam raptar mulheres certamente eram smbolos de potncia.
O Carnaval no era apenas uma festa de sexo, mas tambm uma festa de agresso, destruio, profanao. De fato, talvez seja de se pensar no sexo como o meio-termo 
entre a comida e a violncia. A violncia, como o sexo, era mais ou menos sublimada em ritual. Nessa ocasio, a agresso verbal era permitida; os mascarados podiam 
insultar os indivduos e criticar as autoridades. Era a hora de denunciar o vizinho como cornudo ou saco de pancada da sua mulher. Numa procisso de Carnaval em 
Madri, em 1637, uma figura, que parecia esfolada, trazia a inscrio:
Sisas, alcavalas y papel sellado
Me tienen desollado.
(Taxas, impostos e papel selado / Me deixam desolado.)24
Outras figuras, aludindo ao corrente trfico de distines, traziam os uniformes das ordens militares, com inscries " venda". A agresso freqentemente se ritualizava 
em batalhas simuladas ou partidas de futebol, ou era transferida para objetos que no podiam se defender facilmente, como galos, cachorros, gatos e judeus, que eram 
atingidos com pedras e lama em sua corrida anual por Roma. No raro ocorriam violncias mais srias, quer porque os insultos fossem longe demais ou porque no se 
queria perder uma ocasio ideal para descontar velhos rancores. Em Moscou, o nmero de assassinatos na rua aumentava durante a poca de Carnaval, ao passo que um 
visitante ingls em Veneza, no final do sculo XVI, registrou que "no domingo de Carnaval  noite foram mortas dezessete pessoas, e inmeras ficaram feridas; alm 
do que eles informavam, quase toda noite havia um assassinato, durante todo o tempo de Carnaval". Em Londres, a violncia dos aprendizes pg.211 na Tera-Feira Gorda 
era to comum como comer panquecas: "Rapazes armados de cacetes, pedras, marretas, rguas, trolhas e serras de mo saqueavam os teatros e atacavam os bordis", com 
os bolsos cheios de pedras para atirar no aguazil e seus homens, quando chegavam ao local. Por volta de 1800 foi dito que "a mdia de ferimentos srios ou mortais 
em cada grande festa em Sevilha" era "cerca de dois ou trs".25
Claude Lvi-Strauss nos ensinou a procurar pares de opostos ao interpretarmos os mitos, rituais e outras formas culturais. No caso do Carnaval, havia duas oposies 
bsicas que fornecem o contexto para interpretar muitos aspectos nos comportamentos, oposies essas de que os contemporneos tinham clara conscincia.
A primeira delas  entre o Carnaval e a Quaresma, entre o que os franceses chamavam de jours gras e jours maigres, geralmente personificados como um gordo e uma 
magra. Segundo a Igreja, a Quaresma era uma poca de jejum e abstinncia  no s de carne, mas de ovos, sexo, ir ao teatro ou outros entretenimentos. Portanto, 
era natural apresentar a Quaresma como uma figura emaciada (a prpria palavra "Quaresma"  Lent  significa "tempo de privao"  lean time), desmancha-prazeres, 
associada aos peixes da dieta de Quaresma. O que faltava na Quaresma era naturalmente o que abundava no Carnaval, de modo que a figura do "Carnaval" era representada 
como um comilo e beberro jovem, alegre, gordo, sensual, como um Gargntua ou um Falstaff shakespeariano. (Decerto a conexo era no sentido inverso, e o Carnaval 
 que fornece o contexto para interpretar Gargntua e Falstaff.)
A segunda oposio bsica requer uma maior explicao. O Carnaval no se opunha apenas  Quaresma, mas tambm  vida cotidiana, no s aos quarenta dias que comeavam 
na Quarta-Feira de Cinzas, mas tambm ao resto do ano. O Carnaval era uma representao do "mundo virado de cabea para baixo", tema favorito na cultura popular 
dos incios da Europa moderna; le monde renvers, il mondo alla rovescia, die verkehrte Welt. O "mundo de ponta-cabea" prestava-se a ilustraes, e dos meados do 
sculo XVI em diante foi um tema predileto em estampas populares (p. 44). Havia a inverso fsica: as pessoas ficavam de ponta-cabea, as cidades ficavam no cu, 
o sol e a lua na terra, os peixes voavam ou, item caro aos desfiles de Carnaval, um cavalo andava para trs com o cavaleiro de frente para a cauda. Havia a inverso 
da relao entre homem e animal: o cavalo virava ferrador e ferrava o dono; o boi virava aougueiro, cortando em pedaos um homem; o peixe comia o pescador; as lebres 
carregavam um pg.212 caador amarrado ou giravam-no no espeto. Tambm se representava a inverso das relaes entre homem e homem, fosse inverso etria, inverso 
de sexo ou outra inverso de status. O filho aparecia batendo no pai, o aluno batendo no professor, os criados dando ordens aos patres, os pobres dando esmolas 
aos ricos, os leigos dizendo missa ou pregando para o clero, o rei andando a p e o campons a cavalo, o marido segurando o beb e fiando, enquanto sua mulher fumava 
e segurava uma espingarda.26
Qual era o sentido dessa srie de imagens? No h uma resposta simples para essa pergunta. Elas eram ambguas, com sentidos diferentes para diferentes pessoas, e 
possivelmente ambivalente, com diferentes sentidos para a mesma pessoa.  muito fcil documentar a atitude das classes altas, para as quais essas imagens simbolizavam 
caos, desordem, desgoverno. Os adversrios da mudana nos incios do perodo moderno com frequncia caracterizavam-nas como literalmente "subversivas", uma tentativa 
de inverter o mundo. Seu pressuposto era o de que a ordem existente era a ordem natural, que qualquer alternativa a ele era simples desordem. Lutero, por exemplo, 
foi atacado por "virar o mundo de cabea para baixo" e, por sua vez, atacou da mesma forma os rebeldes camponeses de 1525. Na Inglaterra, em meados do sculo XVII, 
os quacres, entre outros grupos, eram chamados pelos adversrios de "viradores do mundo de cabea para baixo".27
J muito menos claro  se o povo achava ruim esse "mundo de pernas para o ar". Quando os rebeldes camponeses de 1525 invadiram a casa da Ordem Teutnica em Heilbronn, 
obrigaram os cavaleiros a trocar de lugar com eles. Enquanto os invasores se banqueteavam, os cavaleiros tinham de ficar de p junto  mesa, com o chapu na mo. 
"Hoje, junkerzinho", disse um dos camponeses, "somos ns os cavaleiros." (Heut, Junkerlein, syn wir Teutschmeister.) Os plebeus de Norfolk, em 1549, na rebelio 
de Ket, declararam que os "fidalgos governaram antes e agora eles vo governar". No Vivarais, em 1670, os camponeses exigiram o mesmo. "Chegou o momento da profecia", 
diziam, "em que as panelas de barro vo quebrar as de ferro." Depois da Revoluo Francesa, circularam duas estampas populares, uma com o nobre montado no campons, 
a outra com o campons montado no nobre, com a inscrio "eu sabia que estava chegando nossa vez".28 (ilustraes 19 e 20) Um mundo s avessas estava presente na 
utopia popular do pas da Cocanha, "terra dos preguiosos" ou "terra do preste Joo", onde as casas tinham os telhados cobertos de panquecas, nos riachos corria 
leite, os porcos assados corriam soltos com facas convenientemente fincadas nas costas, e corridas onde o ganhador era pg.213 quem chegava por ltimo. Um poeta 
popular francs acrescentou suas variaes a esse tema comum:

Pour dormir une heure
De profonde sommeille
Sans qu'on se rveille,
On gagne sixfrancs,
Et  manger autant;
Et pour bien boire
On gagne une pistole;
Ce pays es t drle,
On gagne par jour
Dix francs faire l'amour.29
(Por dormir uma hora / De sono profundo, / Sem despertar, /Ganha-se seis francos, / E o mesmo para comer; / E para bastante beber / Ganha-se um dobro de ouro; / 
Esse pas  engraado, /Ganha-se por dia / Dez francos para amor fazer.)

A Cocanha  uma viso da vida como um longo Carnaval, e o Carnaval  uma Cocanha passageira, com a mesma nfase sobre a comida e as inverses. O Carnaval era uma 
poca de comdias, que muitas vezes apresentavam situaes invertidas, em que o juiz era posto no tronco ou a mulher triunfava sobre o marido.30 As fantasias de 
Carnaval permitiam que os homens e mulheres trocassem seus papis. As relaes entre patro e empregado podiam se inverter; na Inglaterra, "a liberdade dos criados 
na Tera-Feira Gorda" era tradicional. Os tabus cotidianos que coibiam a expresso de impulsos sexuais e agressivos eram substitudos por estmulos a ela. O Carnaval, 
em suma, era uma poca de desordem institucionalizada, um conjunto de rituais de inverso. No admira que os contemporneos o chamassem de poca de "loucura" em 
que reinava a folia. As regras da cultura eram suspensas; os exemplos a se seguir eram o selvagem, o bobo e o "Carnaval", que representava a Natureza ou, em termos 
freudianos, o Id. Como Mantuano, um poeta italiano, escreveu no incio do sculo XVI:

Per fora per vicos it personata libido
Et censore carens subit omnia tecta voluptas.
(Por praas e ruas vai o desejo mascarado / E sem o censor o prazer entra em todos os tetos.)

Os versos tm uma ressonncia freudiana.  claro que os termos libido e censor tm para ns associaes que no existiam no sculo XVI, mas o poeta est indicando 
que o Carnaval proporcionava uma vlvula de escape para desejos sexuais normalmente reprimidos.31 pg.214
As oposies gmeas entre Carnaval e Quaresma, o "mundo de ponta-cabea" e o mundo cotidiano, no esgotam, evidentemente, os significados do Carnaval. Um outro tema, 
que surge particularmente nos carnavais de Nuremberg,  o da juventude. Em 1510, um carro alegrico representou a fonte da juventude; em 1514, representou uma velha 
a ser devorada por um demnio gigante. Talvez o "mundo de pernas para o ar" fosse, em si mesmo, um smbolo gigantesco de rejuvenescimento, de volta  liberdade dos 
anos anteriores  idade da razo.32
Quando sir James Frazer discutiu o Carnaval em seu Golden Bough ("O ramo de ouro") ele sugeriu que era um ritual para fazer crescer a lavoura, e interpretou no 
s os selvagens, mas tambm o prprio "Carnaval" como espritos da vegetao. Qualquer que seja a origem do ritual, no parece que tenha sido esse o seu significado 
para quem participava da festa nas cidades dos incios da Europa moderna. Mas seria um erro descartar Frazer pura e simplesmente. A "fertilidade"  um conceito consideravelmente 
til para ligar elementos dspares do Carnaval, desde ovos a casamentos e os vrios smbolos flicos. Uma salsicha podia simbolizar um falo; mas ento um falo podia 
simbolizar algo mais, quer os contemporneos tivessem conscincia disso ou no. S podemos especular.33 O que  claro  que o Carnaval era polissmico, significando 
coisas diferentes para diferentes pessoas. Os sentidos cristos foram sobrepostos aos pagos, sem obliter-los, e a resultante precisa ser lida como um palimpsesto. 
Os rituais transmitem simultaneamente mensagens sobre comida e sexo, religio e poltica. A bexiga de um bobo, por exemplo, tem diversos significados, por ser uma 
bexiga, associada aos rgos sexuais, por vir de um porco, o animal do Carnaval par excellence, e por ser trazida por um bobo, cuja "fatuidade"  simbolizada por 
ela ser vazia.

O CARNAVALESCO
O Carnaval no tinha a mesma importncia em toda a Europa. Ele era forte na rea mediterrnica, Itlia, Espanha e Frana, razoavelmente forte na Europa central, 
e mais fraco no norte, Gr-Bretanha e Escandinvia, provavelmente porque o clima desencorajava uma elaborada festa de rua nessa poca do ano. Onde o Carnaval era 
fraco, e mesmo em alguns lugares onde era animado, outras festas desempenhavam suas funes e apresentavam as mesmas caractersticas. Assim como as estrias circulavam 
de um heri para outro, da mesma forma pg.215 "partculas" elementares do ritual circulavam de uma festa para outra. De caractersticas mais nitidamente "carnavalescas" 
eram os vrios dias de festa que caam em dezembro, janeiro e fevereiro  em outras palavras, dentro da poca do Carnaval em seu sentido mais amplo.
Um exemplo famoso  a festa dos Bobos, realizada em 28 de dezembro (a festa dos "inocentes" massacrados por Herodes) ou em torno dessa data, particularmente bem 
documentada na Frana. A festa dos Bobos era organizada pelos novios, equivalente eclesistico das associaes de rapazes que tanto se destacavam durante o Carnaval. 
O povo participava da mesma forma que participava da missa, na congregao. Durante a festa dos Bobos, elegia-se um bispo ou abade dos bobos, havia dana na igreja 
e nas ruas, a procisso usual e uma missa simulada quando os clrigos usavam mscaras, roupas de mulher, ou vestiam seus hbitos de trs para a frente, seguravam 
o missal de ponta-cabea, jogavam cartas, comiam salsichas, cantavam cantigas obscenas e maldiziam a congregao, ao invs de abeno-la. As "indulgncias" proclamadas 
no sul da Frana (em langue d'Oc, ao invs de latim) podiam ser assim:

Mossehor, qu'es eissi prsen,
Vos dona xx banastas d mal d dens,
Et a ts vs aoutrs aossi,
Dona una ca de Roussi.
(Meu senhor, que est aqui presente / Vos d vinte cestos de dor de dentes, / E a todos vs outros tambm / D uma bela bebedeira.)

Dificilmente se poderia querer uma representao mais literal do "mundo virado de cabea para baixo". Ele era legitimado por um versculo do Magnificat, Deposuit 
potentes de sede et exaltavit humiles ("Ele deps os poderosos e ergueu os humildes"). Em outros lugares, como na Inglaterra antes da Reforma, a ocasio assumia 
a forma mais branda da festa do "bispo menino" ou da "missa dos Inocentes". Segundo a proclamao que aboliu esses costumes, em 1541, eles incluam "crianas com 
enfeites esquisitos, vestidas para imitar padres, bispos e mulheres, e assim serem levadas com canes e danas de casa em casa, abenoando as pessoas e coletando 
dinheiro, e os meninos de fato cantam a missa e pregam no plpito".34 No aniversrio do massacre de Herodes, permitia-se que as crianas assumissem o comando.
A festa dos Inocentes caa nos doze dias do Natal, e todo esse perodo era tratado de forma carnavalesca, algo bastante apropriado do ponto de vista cristo, j 
que o nascimento do filho de Deus numa mangedoura era um exemplo espetacular do "mundo de cabea para pg.216 baixo". Como o Carnaval, os doze dias de Natal eram 
grandes ocasies de se comer e beber, para a encenao de peas e "desgoverno" de vrios tipos. Na Inglaterra, o hbito era encenar "peas de arado", que podiam 
incluir casamentos simulados, na primeira segunda-feira depois do dia de Reis. Tambm podia haver "uma troca de roupas entre homens e mulheres" no Ano-Novo. Como 
no Carnaval, essa poca era personificada. A "cavalgada" ou procisso de Yule (o Papai Noel original) e sua esposa era um grande acontecimento em York no sculo 
XVI, "atraindo grande afluncia de gente atrs deles para olhar", como admitiu a corporao, ao abolir o ritual, em 1572. Na Itlia, era a Epifania que era personificada 
como La Befana ou La Vecchia, uma bruxa velha um tanto parecida com a "Quaresma", que podia ser queimada no final dos festejos.35
Na Rssia, segundo um visitante ingls do sculo XVI, no Natal "cada bispo em sua igreja apresenta um espetculo das trs crianas no forno, em que se faz vir o 
anjo voando do telhado da igreja, com grande admirao dos espectadores, e aparecem muitos clares terrveis de fogo, feitos com resina e plvora pelos caldeus (como 
os chamam) que correm pela cidade durante os doze dias, disfarados em seus casacos de atores e praticam esse esporte to saudvel em honra ao quadro vivo do bispo". 
O lado carnavalesco das atividades aparece mais marcadamente num relato alemo do sculo XVII, que explica que esses "caldeus", assim chamados por causa das pessoas 
que convenceram Nabucodonospr a atirar Sidrac, Misac e Abdnago na "fornalha de fogo ardente" (Daniel 3, 8-30), eram:

...certas pessoas dissolutas que a cada ano recebiam autorizao do patriarca, por um perodo de oito dias antes do Natal at o dia dos Trs Reis Magos, para correr 
pelas ruas com fogos de artifcio especiais. Muitas vezes eles queimavam as barbas dos passantes, principalmente dos camponeses ... quem quisesse ser poupado tinha 
que pagar um copeque. Andavam vestidos como folies de carnaval, com chapus de madeira pintada na cabea.

Ainda na poca do Carnaval, em 5 de fevereiro havia a festa de santa gata, santa Agueda para os espanhis, para quem o dia era ocasio para um outro rito de inverso: 
as mulheres mandavam e os homens obedeciam.  como se os torturadores de santa gata, ao cortarem seus seios, tivessem-na convertido numa amazona.36
Fora da poca do Carnaval, havia festas que enfatizavam os temas da renovao, comilana, sexo, violncia ou inverso, e assim podem ser descritos como carnavalescos. 
Na Inglaterra, a Tera-Feira da Pscoa ou Hock Tuesday constitua uma delas: as mulheres capturavam pg.217 os homens e faziam com que eles pagassem um resgate pela 
sua libertao. O mesmo acontecia com o dia Primeiro de Maio, pois na Inglaterra a animada festa de Maio parece ter compensado uma Tera-Feira Gorda relativamente 
calma. Havia elaborados jogos de Maio, organizados por um rei e uma rainha de Maio, em que podiam se incluir peas sobre so Jorge (que era um vizinho, pois sua 
festa caa uma semana antes) ou Robin Hood (acima, p. 204). Homens, mulheres e crianas iam para os bosques onde, como diz um relato do final do sculo XVI, "eles 
passam a noite inteira em passatempos agradveis", voltando com ramos de btula e o mastro de Maio. Em outras palavras, os ritos de primavera envolviam liberdade 
sexual. Na Londres do sculo XVIII, os limpadores de chamin cobriam-se com farinha no dia Primeiro de Maio, exemplo mais claro possvel do ritual de inverso: o 
branco toma aqui o lugar do preto. Na Itlia, os mastros da festa eram conhecidos como alberi della Cucagna ("rvores da Cocanha"), outro elo com o mundo do Carnaval. 
Na Espanha, o dia Primeiro de Maio era, como o Carnaval, comemorado com batalhas e casamentos simulados, "uma espcie de pea", por exemplo (como Covarrubias mencionarem 
seu dicionrio), "encenada por rapazes e moas que pem um menininho e uma menininha num leito matrimonial que significa casamento".37
O vero tambm tinha seus carnavais, principalmente Corpus Christi e a festa de so Joo Batista. A festa de Corpus Christi, que se difundiu pela Europa a partir 
do sculo XIII, era um dia de procisses e peas. Na Inglaterra dos finais da Idade Mdia, era a poca em que os mistrios eram apresentados nas praas do mercado 
de Chester, Coventry, York e outros lugares. Tambm na Espanha, Corpus Christi era o grande dia de apresentao de peas religiosas, mas o procedimentos eram permeados 
de elementos carnavalescos. Elaborados carros alegricos passavam pelas ruas, transportando santos, gigantes e, o mais importante, um enorme drago, explicado em 
termos cristos como a festa do Apocalipse, enquanto a mulher s suas costas supostamente representaria a prostituta da Babilnia. Os ouvidos da multido podiam 
ser tomados por sons de fogos de artifcio, gaitas de foles, pandeiros, castanholas, tambores e cornetas. Os diabos tinham um papel importante a desempenhar, dando 
cambalhotas, cantando e travando batalhas simuladas com os anjos. O bobo tinha outra oportunidade de bater nos circunstantes com a sua bexiga.38
J se sugeriu que a noite de So Joo, o Solstcio de Vero, era uma importante festa organizada em torno do tema da renovao (acima, p. 205). Essa festa adotava 
uma forma carnavalesca em algumas comunidades que tinham so Joo como santo padroeiro. Era o caso, pg.218 por exemplo, de Chaumont, na diocese de Langres, onde 
as semana; que antecediam a festa eram dedicadas ao desgoverno, organizado ou antes, desorganizado por demnios. Os demnios, um tanto parecidos com os "caldeus" 
russos, atiravam fogos de artifcio na multido, corriam pela cidade nas noites de domingo, aterrorizavam o campo e cobravam taxas no mercado. Essas atividades eram 
interpretadas como uma representao do poder do demnio sobre o mundo, que durava at a festa de so Joo. Florena tambm era dedicada a so Joo Batista, e sua 
festa vinha marcada no s por peas religiosas, procisses e carros alegricos, mas tambm por fogueiras, gigantes, fogos de artifcio, corridas, partidas de futebol, 
touradas e spiritelli, homens com andas. No norte e leste da Europa, a noite de So Joo era uma festa particularmente importante durante nosso perodo, fosse porque 
as reminiscncias pags eram mais fortes ou porque os rituais pblicos que ocorriam no Carnaval em pases mediterrnicos e em Maio na Inglaterra ficariam melhor 
nesses climas mais frios se adiados para junho. Na Estnia do sculo XVI, a noite de so Joo era marcada, segundo um pastor luterano, por "chamas de alegria por 
todo o pas. Em torno dessas fogueiras, o povo danava, cantava e pulava com grande prazer, e no poupava as grandes gaitas de foles ... traziam-se muitos carregamentos 
de cerveja ... que desordem, prostituio, brigas, mortes e medonha idolatria l ocorriam!". Na regio rural em torno de Riga, um outro pastor luterano descreveu 
a festa da noite de so Joo em termos mais simpticos, no final do sculo XVIII. Seu nome: J. G. Herder (acima, p. 31 ss.).39
A nfase do Carnaval em comida e bebida parece ausente dessas festas de primavera e vero, mas o povo se compensava no outono. Comer e beber eram o ponto alto da 
ceia da colheita oferecida aos ceifadores, embora no se esquecessem outras diverses: "Um rabequista tem que tocar para eles quando enchem a barriga, indo para 
o celeiro e danando no cho de madeira at que pingam suor, havendo um caneco de cerveja  mo para eles e um pedao de fumo para cada". Isso foi em Cardiganshire, 
em 1760. Na Siclia, poucos anos depois, um visitante francs observou que "depois da colheita os camponeses comemoram uma festa popular, uma espcie de orgia", 
danando ao som de tambores; "uma moa vestida de branco montada num asno ...  cercada por homens a p que trazem molhos de trigo nos braos e cabea, e parecem 
homenage-la com eles". Na Inglaterra, havia um igualitarismo carnavalesco no decorrer das festividades. Na ceia da colheita, conta-nos um observador do sculo XVIII, 
"o criado e seu patro so iguais e tudo  feito com igual liberdade. Sentam-se  pg.219 mesma mesa, conversam juntos livremente, e passam o resto da noite danando, 
cantando, etc., sem nenhuma difrena ou distino.40 
Outros rituais outonais de comidas e bebidas eram as festas de so Bartolomeu (25 de agosto) e so Martinho (11 de novembro). So Bartolomeu, que se dizia ter sido 
esfolado vivo, era um padroeiro adequado, ainda que horrvel, para os aougueiros. Em Bolonha e Londres, seu dia era ocasio de algumas comemoraes carnavalescas. 
Em Bolonha, era chamado "a festa do porco", que era levado em triunfo e, em seguida, morto, assado e distribudo. Em Londres, o mesmo dia era a ocasio da feira 
de so Bartolomeu, realizada em Smithfield, centro do setor de carnes de Londres. A pea de Ben Jonson descreve com preciso os principais ingredientes dessa festa: 
porcos de Bartolomeu (vendidos em barracas com uma cabea de porco como tabuleta), po de gengibre, teatro de bonecos e vrios dias de baguna autorizada. Na Frana, 
Alemanha e Pases Baixos, o dia de so Martinho era uma grande ocasio, quando o povo obedecia alegremente  ordem da cano "beba o vinho de Martinho e coma ganso" 
(trinck Martins wein und gens isz), tanto mais alegremente porque em alguns lugares, como em Groningen, no incio do sculo XVII, era costume que os estalajadeiros 
servissem ganso assado de graa.41
As execues pblicas, a "entrada" solene "de pessoas importantes na cidade, a comemorao de vitrias (ou coroaes, ou ainda o nascimento de filhos dos reis) e, 
pelo menos na Inglaterra do sculo XVIII, as eleies parlamentares, eram todas elas ocasies carnavalescas. As eleies, notadamente em Westminster, eram oportunidade 
para se comer, beber, cantar e brigar nas ruas, e terminava com um ritual de triunfo, o "carregamento" do candidato vitorioso. A violncia e xtase de tais ocasies 
foram captadas e preservadas para ns por Hogarth. As vitrias significavam festejos, fogos de artifcios e fogueiras; a entrada dos reis significava a construo 
de arcos do triunfo, discursos, batalhas simuladas, fontes que jorravam vinho e moedas atiradas  multido.
Um ritual muito mais comum nos incios da Europa moderna era a execuo. Era uma encenao teatral cuidadosamente manipulada pelas autoridades para demonstrar ao 
povo que o crime no compensava. Da a objeo do dr.Johnson  abolio dos enforcamentos pblicos:

Sir, as execues se destinam a atrair espectadores. Se elas no atraem espectadores, no preenchem sua finalidade. Pg.220

A execuo comeava com um desfile dos condenados e seus guardas, como, por exemplo, a caminhada at Tyburn, e os condenados seguiam em carroas com cordas no pescoo. 
A seguir, subiam ao cadafalso, palco onde seria desempenhado seu ltimo ato. O clero os aguardava. Os condenados podiam ter permisso para se dirigir  multido, 
para declarar seu arrependimento ou (como em Montpellier, em 1554) relatar seus crimes em versos. Se o criminoso tinha fugido, ele podia ser enforcado simbolicamente, 
procedimento que devia lembrar o Carnaval aos espectadores. Os condenados presentes eram decapitados, enforcados, queimados ou supliciados na roda, e o sinistro 
ritual terminava com "o estripamento e o esquartejamento", a exibio das cabeas nos portes da cidade e, evidentemente, a venda de baladas que contavam seus ltimos 
momentos. Se o criminoso era padre, seria solenemente "degradado" ou "secularizado" antes da execuo, como Savonarola e dois outros frades em 1498, no cadafalso 
na principal praa de Florena: Estavam vestidos com todos os seus trajes, que foram retirados um por um, com as palavras apropriadas para a degradao ... a seguir 
suas mos e rostos foram depilados, como  habitual nessa cerimnia".
Formas mais brandas de castigo pblico tambm eram apresentadas de modo teatral, como o aoitamento do condenado amarrado atrs da carroa, atravs do centro da 
cidade ou, o mais carnavalesco de todos, o castigo por prtica de medicina sem as habilitaes formais: "Essas pessoas so postas de costas num burro, com a cauda 
nas mos em lugar das rdeas, e so conduzidas dessa maneira pelas ruas".42 Essas apresentaes exigiam a participao do pblico, da mesma forma que o Carnaval; 
ofereciam oportunidades semelhantes para o sadismo, atirando-se lama e pedras nos criminosos  medida que passavam, como no caso dos judeus que corriam em Roma. 
A finalidade do tronco e do pelourinho era em parte o escarmento pblico, em parte a exposio do infrator  violncia da multido. No entanto, os espectadores nem 
sempre reagem como espera ou quer o autor da pea, e a multido no interpretava necessariamente esses procedimentos da mesma maneira que as autoridades. Eles podiam 
simpatizar com o criminoso, e a execuo era estruturada de tal modo que os espectadores tinham condies de exprimir essa simpatia. Para tomar dois exemplos ingleses: 
quando Lilburne foi aoitado pela Fleet Street at Westminster, em 1638, ele foi amparado pela multido, e quando Defoe enfrentou o pelourinho do Tribunal, em 1703, 
ao invs das habituais pedras ou lixo, atiraram-lhe flores. Nas execues, principalmente em Tyburn, no sculo XVIII, os rituais oficiais tinham de coexistir com 
pg.221 rituais populares que apresentavam o carrasco como vilo e o criminoso como heri. Moas nos degraus da igreja do Santo Sepulcro atirariam flores e enviariam 
beijos aos condenados,  medida que passavam. A atmosfera de Carnaval em Tyburn tem sido frequente tema de comentrios.43
Carnavalescos eram tambm os rituais de justia popular, sendo o mais famosos o charivari. Um charivari, para seguir uma famosa definio inglesa do sculo XVII, 
era uma "difamao pblica", mais especificamente "uma balada infame (ou infamante) cantada por um bando de pessoas instaladas sob a janela de um velho caduco casado, 
no dia anterior, com uma jovem libertina, em caoada de ambos". Normalmente vinha acompanhada de uma "msica grosseira" (a Kat' zenmusik alem, a keteimusik holandesa), 
tal como batidas em panelas e caarolas; em outras palavras, era uma serenata de gozao. O  charivari era conhecido por toda a Europa, de Portugal  Hungria, embora 
os detalhes do ritual e tambm a escolha da vtima pudessem variar. No era apenas o velho casado com a moa (ou vice-versa) que podiam ser objeto de um charivari, 
mas qualquer um que estivesse se casando pela segunda vez, uma moa que se casava fora da aldeia, um marido que era cornudo ou apanhava da mulher. Essa caoada pblica 
podia ser adiada at o Carnaval, quando os insultos eram permitidos, e podiam ser organizados por sociedades como a Abbaye des Conards, em Rouen, ou a Badia degli 
Stoiti, em Turim, que desempenhavam papis importantes no Carnaval. A vtima, ou seu vizinho, ou um retrato dela, podia ser levada pelas ruas, montada de costas 
num burro, provavelmente para mostrar que essas quebras das convenes matrimoniais invertiam a ordem das coisas  e o bater em panelas e caarolas fornecia uma 
espcie de "msica de ponta-cabea". O ritual podia ser empregado fora do contexto do casamento, contra pregadores ou senhores rurais; na Frana do sculo XVII, 
os coletores de impostos eram expulsos das cidades que visitavam numa espcie de charivari. E, ainda, as figuras impopulares podiam ser enforcadas ou queimadas simbolicamente, 
como o "Carnaval"; com efeito, se fosse possvel compilar um registro de todos os que foram publicamente liquidados simbolicamente entre 1500 e 1800, ele nos revelaria 
muito sobre a cultura popular dos incios da Europa moderna. Nessa lista, destacar-se-iam Judas, Machiavelli, Guy Fawkes, cardeal Mazarino, Tom Paine e, evidentemente, 
o papa.44
Num certo sentido, toda festa era um Carnaval em miniatura, na medida em que era uma desculpa para a realizao de desordens e se baseava no mesmo repertrio de 
formas tradicionais, que incluam pg. 222 procisses, corridas, batalhas simuladas, casamentos simulados e falsas execues (acima, p. 146). O emprego do termo 
"carnavalesco" no pretende supor que os costumes da Tera-Feira Gorda fossem a origem de todos os outros; ele apenas sugere que as grandes festas do ano tinham 
rituais em comum, e que o Carnaval constitua um agrupamento especialmente importante de tais rituais. Pensar nas festas religiosas dos incios da Europa moderna 
como pequenos carnavais est mais perto da verdade do que conceb-las como graves rituais sbrios  maneira moderna.

CONTROLE SOCIAL OU PROTESTO SOCIAL?
At aqui, encaramos as festas populares basicamente em termos do seu significado para os participantes, mas essa abordagem no  a nica possvel. Os antroplogos 
sociais que estudam mitos e rituais em muitas partes do mundo tm acentuado que esses mitos e rituais desempenham funes sociais, quer os participantes tenham conscincia 
disso ou no. Poderemos dizer o mesmo em relao aos incios da Europa moderna? Quais eram por exemplo, as funes do Carnaval? Algumas funes das festas populares 
parecem bem evidentes. Elas eram diverso, pausa bem-vinda na luta diria pela subsistncia; ofereciam ao povo algo pelo que ansiar. Elas celebravam a prpria comunidade 
na suas habilidades em montar um bom espetculo, e talvez a zombaria contra os forasteiros (judeus no Carnaval romano, camponeses no de Nuremberg) fosse, entre outras 
coisas, uma expresso teatralizada da solidariedade comunitria. Na festa de so Joo Batista, em Florena, alguns rituais expressavam a subordinao de outras comunidades 
a essa capital de um imprio. As festas tambm ofereciam oportunidade para que diferentes grupos da mesma comunidade competissem entre si, o que muitas vezes era 
ritualizado sob a forma de batalhas simuladas, como as batalhas nas pontes de Veneza ou Pisa ou as partidas de futebol em Florena, mas tambm podia ser expresso 
nos esforos de diferentes parquias, guildas ou bairros da cidade para apresentarem exibies melhores do que seus rivais. Um padre de Provins, na Champagne, escreveu 
em 1573 que as procisses locais exprimiam "rivalidade entre as igrejas" (envye d'une glise sur I'aultre).45
O ritual do charivari parece ter servido  funo de controle social, no sentido em que era o meio utilizado por uma comunidade, aldeia ou parquia urbana para expressar 
sua hostilidade a indivduos que saam da linha, e dessa forma desencorajar outras possveis transgresses pg. 223 aos costumes. Fazer com que as mulheres solteiras 
empurrassem um arado pelas ruas durante o Carnaval era uma maneira de incentiv-las a encontrar marido. Os rituais de execuo pblica tambm podiam ser vistos como 
forma de controle social, na medida em que havia um consenso da comunidade quanto  perversidade do crime. Fora da pequena comunidade, a expresso "controle social" 
se torna enganadora, e  preciso parar e perguntar quais os grupos que esto usando o ritual para controlar quais outros grupos. As classes dominantes, que conheciam 
sua histria romana, tinham conscincia das utilidades do "po e circo" ou do pan, toros y trabajo, programa que Valenzuela, favorito real espanhol, apresentou em 
1674.46 O ritual oficial em Tyburn expressava a tentativa das classes dominantes em controlar as pessoas comuns, ao passo que os rituais no oficiais expressavam 
protesto contra tais tentativas. O uso do ritual no conflito social se mostra ainda mais claramente em Palermo, em 1647. O conflito foi desencadeado por um aumento 
no preo do po. Uma multido dirigiu-se para a casa de um funcionrio pblico impopular, para atear fogo a ela, e conseguiu despedaar as janelas, ao que podia 
ser interpretada como expresso do seu furor, mas tambm como uma tentativa de pressionar o governo por vias no oficiais, mas costumeiras. A multido foi detida 
por alguns frades carmelitas, que se dirigiram a ela carregando a hstia, de modo que todos tiveram de cair de joelhos. Aqui vemos o uso do ritual religioso como 
forma de controle da multido.47
Esses exemplos so bastante bvios. A anlise funcional  mais interessante quando  mais paradoxal, isto , quando os rituais que aparentemente expressam protesto 
contra a ordem social so interpretados como contribuies a essa mesma ordem. Vrios antroplogos sociais, notadamente o falecido professor Max Gluckman, levantaram 
esse tipo de interpretao. Na Zululndia, logo antes da colheita, as moas solteiras costumavam vestir roupas masculinas, portar escudos e azagaias, cantar cantigas 
obscenas e conduzir o gado, atividades essas normalmente restritas aos homens. Os suzis insultavam e criticavam seu rei por ocasio de certas festividades. Gluckman 
explica essa "liberdade no ritual", como ele a chama, em termos de sua funo social: "A suspenso dos tabus e restries normais serve obviamente para refor-los". 
Protestos aparentes contra a ordem social, essas aes de fato "se destinam a preservar e at fortalecer a ordem estabelecida". Gluckman chega a sugerir que, onde 
a ordem social  seriamente questionada, no ocorrem "ritos de protesto". De forma parecida, Victor Turner, num estudo comparativo de rituais de inverso de status, 
afirma pg. 224  que os rituais levam a "uma experincia de xtase", um sentido exaltado de comunidade, seguida por um "retorno sbrio"  estrutura social normal. 
"Ao converterem o baixo em alto, e o alto em baixo, eles reafirmam o princpio hierrquico."48
Essas anlises tero alguma relevncia para os incios da Europa moderna? Certamente. Assim como as moas zulus vestem roupas de homem uma vez por ano, o mesmo faziam 
as mulheres venezianas. Assim como os suzis podiam criticar as autoridades durante certas festividades, da mesma forma se passava com os espanhis. O "mundo de 
cabea para baixo" erra regularmente reapresentado. Por que as classes altas o permitiam?  como se elas tivessem conscincia de que a sociedade em que viviam, com 
todas as suas desigualdades de riqueza, status e poder, no pudesse sobreviver sem uma vlvula de segurana, um meio para que os subordinados purgassem seus ressentimentos 
e compensassem suas frustraes. Eles no empregavam o termo "vlvula de segurana", pois as caldeiras, at o incio do sculo XIX, no vinham equipadas com esse 
dispositivo, mas referiam-se ao mesmo ponto atravs de metforas tecnicamente mais simples. Alguns clrigos franceses defenderam a festa dos Bobos em 1444 nos seguintes 
termos:

Fazemos essas coisas de brincadeira e no a srio, tal como  o antigo costume, de modo que uma vez por ano a tolice inata em ns pode sair e se evaporar. No  
to comum que os odres e barris de vinho estourem se o respiradouro (spiraculum) no  aberto de tempos em tempos? Ns tambm somos velhos barris...


De modo semelhante, um visitante ingls na Itlia, em meados do sculo XVII, explicou o Carnaval romano aos seus conterrneos: "Tudo isso  permitido aos italianos 
para que possam dar uma pequena vazo aos seus espritos que foram abafados durante um ano inteiro e esto prestes tambm a sufocar com a gravidade e melancolia".49 
A teoria das festas como vlvulas de escape tem muito a recomend-la. Ela chama a ateno para uma srie de caractersticas do Carnaval a que se deu muito pouca 
nfase nessas ltimas pginas. Por exemplo, ajuda a explicar a importncia da violncia, que, ao contrrio da comida e do sexo, no era um elemento reprimido durante 
a Quaresma. Por outro lado, os rapazes podiam expressar abertamente o seu desejo por damas de status social superior, e senhoras respeitveis podiam andar pelas 
ruas. O uso de mscaras ajudava as pessoas a se libertarem dos seus eus cotidianos, conferindo a todos um senso de impunidade como o manto da invisibilidade dos 
contos folclricos.
Um outro ponto a favor da teoria  a sua sugesto quanto a uma vazo controlada de energia. A expresso dos impulsos sexuais e agressivos pg. 225 era estereotipada 
e assim, canalizada. As mscaras no s liberavam os mascarados dos seus papis cotidianos, mas impunham-lhes novos papis. Em Roma, os policiais ou sbirri distribuam-se 
em grande nmero pelas ruas, para garantir que os folies no fossem longe demais; apesar do provrbio, no era verdade que "no Carnaval tudo  permitido". Da a 
necessidade do simbolismo, das canes com duplo sentido, da agresso sublimada no ritual. O julgamento, execuo e enterro do "Carnaval" podiam ser interpretados 
como uma demonstrao ao pblico de que se encerrara o prazo de xtase e liberdade, e que se devia fazer "um retorno sbrio"  realidade cotidiana. As comdias, 
encenadas durante o Carnaval e construdas em torno de situaes de inverso, como o juiz no tronco, freqentemente terminam de modo parecido, com um lembrete aos 
espectadores de que  hora de se pr novamente o mundo em seu lugar.50
Apesar do grande valor da teoria da "vlvula de escape" ou "controle social", no basta interpretar apenas nesses termos os carnavais e outras festas dos incios 
da Europa moderna, seja porque a Europa nesse perodo fosse um grupo de sociedades mais estratificadas do que a frica de Max Gluckman e Victor Turner, seja porque 
os antroplogos, at o final dos anos 1960, tenham se interessado pelo consenso em detrimento do conflito. Seja como for, na Europa entre 1500 e 1800, os rituais 
de revolta efetivamente coexistiram com um srio questionamento da ordem social, poltica e religiosa, e por vezes um se converteu no outro. O protesto se expressava 
em formas ritualizadas, mas o ritual nem sempre bastava para conter o protesto. O barril de vinho s vezes fazia saltar a tampa.
As autoridades de vez em quando tinham conscincia do problema, como sugerem muitos ditos contra o porte de armas durante o Carnaval e, ainda mais intensamente, 
uma controvrsia em Palermo em 1648. O ano de 1647 fora, como acabamos de ver, um ano de distrbios, que os historiadores modernos s vezes descrevem como uma "revoluo". 
O vice-rei que governava a Siclia em nome do rei da Espanha pretendia que o Carnaval de 1648 fosse mais grandioso do que o usual, a fim de distrair o povo. No entanto, 
alguns nobres discordavam dessa poltica, e um deles exps o receio de que, "sob o pretexto dessas aglomeraes do povo para esses espetculos ridculos, espritos 
facciosos fossem capazes ... de incentivar algum novo motim". O cardeal arcebispo de Npoles cancelara a festa de so Joo Batista em 1647 por razes semelhantes. 
Festas significavam que os camponeses viriam  cidade e todos ocupariam as ruas. Muita gente estava mascarada, e alguns armados. A excitao da ocasio e o macio 
consumo de lcool pg. 226 significavam menor inibio em se expressar a hostilidade contra as autoridades ou indivduos particulares. Acrescente-se a isso uma m 
colheita, um aumento nos impostos, uma tentativa de introduzir, ou proibir, a Reforma; e tem-se uma mistura potencialmente explosiva. Poderia haver uma "transferncia" 
de cdigos, passando-se da linguagem do ritual para a linguagem da rebelio. Para passarmos do ponto de vista das autoridades para o ponto de vista mais impalpvel 
do povo, bem podia ser que alguns dos excludos do poder vissem o Carnaval como uma oportunidade para dar a conhecer suas opinies e assim proceder a uma transformao.51
Os motins podem ser encarados como uma forma extraordinria de ritual popular. Evidentemente, os motins e rebelies no so apenas rituais; so tentativas de ao 
direta, e no de ao simblica. Mesmo assim, os rebeldes e amotinados empregavam rituais e smbolos para legitimar sua ao. Como o nome nos lembra, a rebelio 
dos condados do norte da Inglaterra em 1536 assumiu a forma de uma peregrinao, a "peregrinao da Graa", em que os rebeldes marcharam atrs de um estandarte com 
as Cinco Chagas de Cristo. Na Normandia, em 1639, os rebeldes marcharam atrasado estandarte de so Joo Batsta. Os motins adotavam principalmente os rituais do 
charivari e do Carnaval, pois os rituais de deposio, destruio e difamao  a queima dos retratos, por exemplo  adequavam-se aos protestos que os amotinados 
pretendiam fazer. Eles, entretanto, no se detinham aos retratos; em Npoles, em 1585, o linchamento de um funcionrio impopular foi precedido por uma procisso 
simulada, em que ele foi conduzido pelas ruas "com as costas voltadas e sem barrete" (con le spalle voltate e senza berretta), como se passasse por um charivari.52
Os motins e rebelies freqentemente ocorriam por ocasio das principais festas. Na Basilia, por muito tempo lembrou-se o massacre que ocorreu na Tera-Feira Gorda 
de 1376, que ficou conhecido como bse Fastnacht ("mau Carnaval"), assim como os londrinos se lembravam do "evil May Day" de 1517 que se tornou um motim contra os 
estrangeiros. Em Berna, em 1513, o Carnaval converteu-se numa revolta camponesa. Durante as guerras religiosas na Frana, os festejos eram altamente passveis de 
degringolar em violncia. Em Romans, Dauphin, as danas e mascaradas organizadas por um dos "reinados" para o Carnaval de 1580 traziam a mensagem de que "os ricos 
da cidade se enriqueceram s custas dos pobres", e a ocasio redundou num massacre, primeiro na cidade e a seguir no campo, onde os fidalgos locais "passavam caando 
pelas aldeias, matando os camponeses como se fossem porcos".  fcil multiplicar os exemplos. Em Dijon, em 1630, pg. 227 o Carnaval se desdobrou num motim no qual 
os vinicultores tomaram a liderana. A grande revolta da Catalunha comeou no dia de uma das maiores festas espanholas, o Corpus Christi. Houve um srio motim em 
Madri no domingo de Ramos de 1766. No  de se admirar que os membros das classes altas frequentemente sugerissem que se deviam abolir determinadas festas, ou que 
a cultura popular estava necessitando de reforma. As tentativas de reform-la constituem o tema do prximo captulo.53 Pg. 228
